- Oh menina, eu tô com muito medo.
-Eu também. Aliás, tô morrendo de medo, meu filho. E não era mentira, eu tava em pânico, com aquele sujeito me olhando. Entrei no ônibus. Achei que o sufoco já havia passado. E passou? Passou não, meu bem. O dito veio meio recatado e sentou ali do meu lado. Ai puta que o pariu quanto mais eu rezo mais maluco me aparece.
-Você pode segurar minha mão? Por favor...
A princípio pensei que de maluco ele não tinha nada, mas um homem daquele tamanho, robusto que só, passar por um papelão desses pra dar em cima de alguém seria uma vergonha.
- Dá’qui a mão, vai. Acabei me apiedando. Que presepada... Ele até que se aquietou um pouco depois de darmos as mãos. Mas continuava suando mais que vaca indo pro abatedouro. Que mais ele podia me pedir? Perguntei onde ele ia saltar e ele me disse que no Hospital dos servidores. Ia ver um tal doutor Ívano.
-Vou ver o doutor, ele está lá hoje.
-Faz muito bem. Bom saber, vai descer antes de mim. Logo chegou o Hospital dos Servidores. Aí me pediu pra levá-lo até a porta. Ora, se já confessei meu medo a este homem, dei as mão a ele durante todo o percurso e lhe prestei palavras de consolo por que não leva-lo a porta?
- Vamos lá. O homem não soltava a mão. O motorista queria fechar as portas, eu não sabia se descia ou se cometia um ato bárbaro e empurrava aquele homem escadas abaixo. Ele perguntou se eu ainda estava com medo. Eu disse que agora ainda mais que antes. Então me disse que não podia largar minha mão. Meio comovida, mas ainda tendo de fazê-lo descer. Eu disse que, aliás, todo mundo ali estava morrendo de medo. Ele olhou sério para as pessoas e me disse que não parecia. Disse a ele que elas fingem muito bem.
-Posso largar sua mão? Me perguntou.
-Pode, eu também vou fingir que passou meu medo. Ele desceu e ficou parado me olhando pela porta, sorrindo com um sorriso que só os loucos têm. Que parece entender tudo e nada ao mesmo tempo.

